
Este não é um post sobre a cozinha tradicional dos negros norte-americanos; muito menos se refere ao slogan de alguma igreja evangélica influenciada pelo Tio Sam. O assunto aqui é a comida que ultrapassa a função de matar a fome para se transformar num verdadeiro alimento para a alma, ou seja, a culinária como arte. Capaz de envolver todos os sentidos, evocar sensações e despertar lembranças, a culinária-arte faz da refeição um momento especial, marcante e, até mesmo, mágico.
As características da culinária-arte podem ser as mais variadas: a combinação de ingredientes improváveis, um tempero exótico, um toque de cor, um sabor que nos remete a uma ocasião especial, entre outras. Incluo ainda nessa categoria os pratos que envolvem a história e as tradições de um país ou região e, principalmente, as criações que promovem um verdadeiro intercâmbio cultural entre eles. É o caso de sobremesas franco-brasileiras como o petit gateau de goiabada com sorvete de queijo ou o mesmo bolinho feito com doce de leite, em vez de chocolate, e acompanhado de sorvete de tapioca.
Arte na mesaPara que a cozinha possa ser o palco dessas grandes obras, a pesquisa, a experimentação e, principalmente, a cabeça e o paladar abertos são essenciais. Isso inclui a deliciosa tarefa de estar sempre à procura de novos pratos nos menus dos restaurantes, testar receitas e revirar delicattessens e supermercados em busca “daquele” ingrediente. Idéias criativas para uma boa apresentação também contribuem para o sucesso da refeição, levando em conta as cores, texturas e a forma do que será servido.
A
harmonização com o vinho, por sua vez, é também uma peça-chave para transformar uma refeição em uma experiência mágica. Afinal, o casamento bem-sucedido entre o fermentado e a comida é capaz de valorizar ao máximo o sabor de ambos, criando uma espécie de terceiro sabor cheio de personalidade. Não por acaso, os amantes do vinho costumam ser grandes apreciadores da boa mesa.
Embora esteja longe de ser uma tarefa fácil, acredito que fazer de uma refeição em alimento para a alma seja algo muito mais intuitivo do que braçal, com a criatividade e a imaginação ocupando papel decisivo na cozinha. É claro que comer com arte todo dia é para poucos, mas um toque diferente ou uma combinação inusitada, por exemplo, podem valorizar a comidinha do dia-a-dia e manter a imaginação em forma para as ocasiões especiais. Quem se habilita?